Uma fábula sobre devoção e gratidão
Várias vezes me deparei com pessoas que haviam sido ajudadas e que não agiam de forma semelhante com quem um dia lhes estendeu a mão. Apesar de evitar pronunciar meus juízos de valores para não influenciar ninguém, tinha para comigo um certo estranhamento sobre tal fato, afinal como uma pessoa poderia negar um favor a quem lhe havia prestado um anteriormente? Acreditava ser essa uma das maiores provas de um caráter duvidoso.
É fato que dar crédito a quem o possui de direito transmite certa transparência comportamental apreciada pela sociedade moderna, todavia percebi um fato novo: gratidão não é necessariamente devoção. Sendo agradecer uma atitude positiva, mas dever, apenas uma concessão.
Se analisada a semiologia pode-se perceber que as palavras gratidão e agradecimento evoluem do latim gratitudine e significam de acordo com LUFT & GUIMARÃES reconhecer por benefício recebido. Todavia a palavra devoção é filha da palavra devotione que significa uma dedicação íntima que envolve afeto, algo que convenhamos não é para qualquer pessoa que nos presta um favor. Em uma visão mais simplista, agradecer é dar crédito a quem de direito, seja prestando uma honesta homenagem ou aplacando as fogueiras das vaidades tão comuns aos ciclos sociais e profissionais.
Quando nos cobram um comportamento de devoção onde deveria apenas haver gratidão, somos empurrados por uma força social chamada de comportamento social desejável, que funciona através da imposição do superego (o "Super Eu" personagem que transmite os anseios da sociedade a respeito de nosso comportamento) sobre o id. Assim, tomamos decisões baseadas na busca pela aceitação dos iguais e muitas vezes sacrificamos alguns conceitos em prol do desejável.
Uma fábula de Esopo transmite bem tais conceitos, quando conta que enquanto devorava uma de suas vítimas o leão ficou com um pedaço de osso entre os dentes, tal artefato feria sua gengiva e prejudicava sua caçada. Reclamando de dor, o leão pediu para a gazela retirar o pedaço de osso, mas para isso ela teria que enfiar a cabeça dentro da boca do leão. A gazela, desconfiada, perguntou para o leão se ele não iria ter para com ela a gratidão necessária e o leão respondeu que absolutamente.
A gazela confiante aceitou o desafio e enfiou a cabeça dentro da boca do leão livrando-o do incômodo, porém, de forma abrupta, o leão cravou seus dentes no pescoço da gazela que reclamou: "ora leão você prometeu que não me devoraria, você tem de ter uma grande devoção para comigo por te livrar do inconveniente osso". O leão respondeu: "Não gazela, não devo-lhe nada mais que um favor, pois fez-me apenas um favor e por isso não deveria esperar nada mais que isso em retribuição, mas sou grato a você e por isso te farei o favor de devorar-lhe rapidamente para que não sinta dor, mas não me peça para lutar contra meus instintos, afinal quem nasceu para jarro jamais será bom tijolo".
Assim, podemos concluir que não devemos criar expectativas, afinal isso significa investir sem necessariamente ter retorno, bem como devemos saber que favores não devem ser moedas de troca, pois gratidão é diretamente proporcional à necessidade que, por sua vez, é momentânea. E por fim, lembrar que gratidão não é devoção, afinal não nos é fácil lutar contra nossas índoles.
Flávio Cavalcante é consultor sócio da Unitté Mentoring Consultoria e professor universitário